{"id":1,"date":"2020-08-05T16:01:20","date_gmt":"2020-08-05T19:01:20","guid":{"rendered":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/?p=1"},"modified":"2020-08-24T12:21:44","modified_gmt":"2020-08-24T15:21:44","slug":"primeiro-capitulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/filipe-ribeiro\/primeiro-capitulo\/","title":{"rendered":"Sou fr\u00e1gil, marque-me de vermelho: Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em <strong>Sou fr\u00e1gil, marque-me de vermelho<\/strong>, uma exposi\u00e7\u00e3o de arte inspirada nos contos perdidos de um blogueiro desaparecido h\u00e1 vinte anos reacende o interesse por aquelas hist\u00f3rias. A busca pelo abismo, o grande tema da obra, volta a unir os poucos que ainda se lembram dela.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas o que seria um reencontro nost\u00e1lgico ganha contornos inquietantes, quando come\u00e7am a suspeitar que pouco daquilo \u00e9 fic\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Escrita por <strong>Filipe de Campos Ribeiro<\/strong>, vencedor do pr\u00eamio ABERST 2019 de melhor romance de Horror, a obra \u00e9 um passeio pelo labirinto da cidade, cujos nomes dados a rodovias, ruas e edif\u00edcios revelam os horrores que tornaram os paulistas quem eles s\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">O<\/span> mundo est\u00e1 quieto. A cidade se movimenta num oceano de ru\u00eddos, e das poucas vozes distingu\u00edveis, nenhuma fala com voc\u00ea. Um \u00f4nibus el\u00e9trico passa e n\u00f3s sabemos: estamos em S\u00e3o Paulo, na \u00faltima semana de 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o os \u00faltimos momentos do mil\u00eanio, que parece uma d\u00e9cada, e nem isso \u00e9. Na cidade esvaziada, s\u00f3 os mais pobres ficaram. Todos os nossos amigos est\u00e3o por aqui. Sob essa vastid\u00e3o fervilhante, um tr\u00e1fego intenso desperta nas primeiras horas da meia noite. Os primeiros retr\u00f3grados n\u00e3o demoraram a rotular a internet de \u201creino do ef\u00eamero\u201d. Hoje, vinte anos depois, sabemos que eles estavam certos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando para tr\u00e1s, aquelas milhares de conversas digitadas, ansiadas e desesperadas n\u00e3o parecem mais t\u00e3o importantes. Mais que isso, todas aquelas discuss\u00f5es, fotos e pessoas foram esquecidas. Os servidores enferrujados, as p\u00e1ginas \u00e0 deriva. Relegadas a um esquecimento t\u00e3o absoluto que parece que nunca aconteceu. Mas divago.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltamos \u00e0 meia noite do dia 28 de dezembro de 1999.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As janelas acesas atestam que o universo paralelo est\u00e1 inquieto. Acabam de se dar conta que Alex Quadrado est\u00e1 desaparecido. Ou morto. \u00c9 imposs\u00edvel confirmar. S\u00f3 sabemos o que nos contam.<\/p>\n\n\n\n<p>xxx<\/p>\n\n\n\n<p>Marcamos de nos encontrar na catraca do metr\u00f4 Barra Funda \u00e0s 5h30 da manh\u00e3. Assim a cidade ainda estaria deserta e poder\u00edamos ser surpreendidos com o amanhecer. Ela chegou luminosa, seus olhos fundos real\u00e7avam que tamb\u00e9m tinha dormido pouco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos de mochila, mas n\u00e3o ir\u00edamos para o cursinho. Naquela \u00e9poca, a id\u00e9ia de futuro parecia t\u00e3o fict\u00edcia quanto Ad\u00e3o e Eva. Est\u00e1vamos reencenando a hist\u00f3ria de dois personagens de um conto de Alex Quadrado. S\u00f3 que no conto os dois eram amantes. N\u00f3s n\u00e3o, ainda. Quer\u00edamos refazer seu itiner\u00e1rio, embora soub\u00e9ssemos que, no fim, n\u00e3o ver\u00edamos o abismo. Era a nossa homenagem a ele, ainda que, quando se tem dezessete anos, quase nada do que escolhemos fazer seja pelo motivo que achamos que \u00e9. Depois piora.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o beb\u00edamos, a promessa de eventos inesperados nos bastava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Amanhecia quando avistamos a bifurca\u00e7\u00e3o da rua Cl\u00e9lia com a Guaicurus, meu caminho preferido na cidade. Nunca houve um dia ruim na Pomp\u00e9ia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Passamos por um McDonald\u2019s, que ficava dentro de um estacionamento vazio. Caminh\u00e1vamos lado a lado, sem nunca olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>xxx<\/p>\n\n\n\n<p>Vinte anos se passaram e aqui estou, de novo, o mesmo caminho. Por onde j\u00e1 passei v\u00e1rias vezes, desde ent\u00e3o. E \u00e9 sempre bom. A exist\u00eancia da menina, mesmo seu nome, jazem esquecidos no rio da mem\u00f3ria. Como tantas outras coisas daquele mundo de ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na S\u00e3o Paulo de 2020, s\u00f3 as ruas &#8211; e o McDonald\u2019s &#8211; ainda s\u00e3o os mesmos. E o SESC Pomp\u00e9ia, para onde estou indo para ver uma exposi\u00e7\u00e3o. Que despertou minha curiosidade por um detalhe, quase despercebido: uma corajosa men\u00e7\u00e3o, feita por um cr\u00edtico, ao agora desconhecido Alex Quadrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um labirinto tinha sido constru\u00eddo dentro do galp\u00e3o do SESC. A descri\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o dizia que as obras eram \u201cEsfinges invertidas. S\u00f3 os que n\u00e3o as decifrarem ver\u00e3o nelas obras de arte. Os outros ver\u00e3o outra coisa\u201d. O resto da descri\u00e7\u00e3o, cuja totalidade me escapa, dizia coisas como \u201cquando \u00e9ramos n\u00f3s mesmos\u201d, ou \u201cele sabia de tudo e n\u00f3s n\u00e3o ouvimos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o mencionava o nome mas, assim como o cr\u00edtico, eu imediatamente soube. Era como ouvir a descri\u00e7\u00e3o de um amigo em comum.<\/p>\n\n\n\n<p>xxx<\/p>\n\n\n\n<p>O que encontrei l\u00e1 dentro, tento agora descrever. Era como se deparar com um abismo antigo, um sentimento de horror conhecido, que levou anos para ser abafado. E agora ele estava l\u00e1, pronto para aniquilar, p\u00e9tala por p\u00e9tala, nossa fome de viver.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada beco sem sa\u00edda havia uma pintura, meio med\u00edocre, de uma cena tirada de algum conto do escritor.&nbsp; A cada caminho errado eu me deparava com uma ang\u00fastia. Tudo muito confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas me lembro de uma das pinturas: um casal, ainda jovem, que tem um encontro num quarto. Muito magros, parecem apaixonados. Conversam com infinita seriedade em cima da cama. Ao lado deles h\u00e1 um prato com migalhas onde um sandu\u00edche fora devorado. Ao lado do prato um pl\u00e1stico com uma fina fatia de mussarela que sobrou. O quarto \u00e9 pequeno e os m\u00f3veis s\u00e3o muito simples, assim como o batente da janela por onde entra o entardecer. E naquele instante eu soube\u2026 Era o casal do conto que t\u00ednhamos reencenado, naquela manh\u00e3 primeva. O mais impressionante foi perceber: essa cena nunca existiu no conto. Mas, por algum mist\u00e9rio, eu sabia que eram eles. S\u00f3 que n\u00e3o era deles que se tratava. Era como se, atrav\u00e9s daqueles personagens, o pintor tivesse retratado eu e a menina. Meu peito era um bote \u00e0 deriva, pressentindo a aproxima\u00e7\u00e3o de um longo salto sem pedras. Tanta coisa voltou, com tanta clareza, que j\u00e1 n\u00e3o sabia se sairia dali eu mesmo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando avistei a sa\u00edda, vislumbrei uma \u00faltima pintura, \u00e0 esquerda. Era Ad\u00e3o e Eva, a \u00c1rvore e a Serpente. \u201cQual desses elementos \u00e9 ficcional?\u201d, indagava a pergunta na parede. Eu sabia a resposta! Era a Serpente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De novo, n\u00e3o havia nenhuma cena sobre A Queda na obra de Alex. Mas eu sabia, havia um conto que tratava do Mal puro, como a radioatividade, que dizia a certa altura: \u201c<em>O Mal n\u00e3o quer nada de voc\u00ea<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>xxx<\/p>\n\n\n\n<p>Desnorteado e confuso, eu caminhava, como num sonho, para longe daquele lugar escuro. Instintivamente percebi que refazia o resto do percurso do casal do conto. Virei na rua que acabava nos fundos de um centro cultural, emoldurada pelo muro da estrada de ferro. Como os dois no conto, pulei o muro que dava para os trilhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nuvens muito escuras rugiam ao longe. Me virei ao ouvir o silvo do trem, e vi. Aquela paisagem dos trilhos, cuja disposi\u00e7\u00e3o dos elementos, sob aquela perspectiva, formava a figura de uma catedral do Mal. E, ent\u00e3o, eu vi o abismo&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que algo tenha se acendido ali. E que nunca mais tenha parado de queimar. Mas, naquele instante de perdi\u00e7\u00e3o, fui salvo por um movimento. Do lado dos vivos, fora dos trilhos, vi duas m\u00e3os segurando a grade que dava para o centro cultural, \u00e0 beira da ferrovia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Marcelo?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O trem passou atr\u00e1s de mim, interrompendo a conversa. Sim, era ela. Uma lembran\u00e7a perfeita, n\u00e3o t\u00e3o magra, de roupa social. Um elemento estranho naquele lugar de artistas despojados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>N\u00e3o lembro do seu nome! &#8211; Supliquei, como me desculpando.<\/li><li>Tudo bem &#8211; ela disse. &#8211; Normal.<\/li><li>Qual \u00e9 o seu nome?<\/li><li>Adriana.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro! Adriana. Me perguntei que outras coisas que tiveram suma import\u00e2ncia eu tamb\u00e9m n\u00e3o lembrava.<\/p>\n\n\n\n<p>O trem j\u00e1 tinha sumido na curva, mas era como se ainda passasse.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Voc\u00ea foi l\u00e1 tamb\u00e9m? &#8211; ela perguntou, e notei que tinha o rosto manchado de maquiagem. Falava da exposi\u00e7\u00e3o, tudo j\u00e1 estava dado.<\/li><li>Fui &#8211; e sil\u00eancio, os dois calados por um tempo.<\/li><li>T\u00e1 legal a\u00ed?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>E eu ri. N\u00f3s rimos. Trepei na cerca que separava a ferrovia da cidade e aterrissei dentro do Tendal da Lapa. E ela me abra\u00e7ou. Nos abra\u00e7amos. Um seguran\u00e7a apareceu na plataforma para depois desaparecer. Ela chorava. Ainda abra\u00e7ados, como se aquele encontro trouxesse uma pequena compensa\u00e7\u00e3o por todo aquele pesadelo reeditado, agora sem as promessas da juventude. Se fora t\u00e3o devastador para mim, s\u00f3 podia imaginar o que tinha sido para ela.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>T\u00e1 tudo bem? &#8211; perguntei quando se soltou dos meus bra\u00e7os.<\/li><li>T\u00e1\u2026 Voc\u00ea tem que ir?<\/li><li>N\u00e3o agora. E voc\u00ea?&nbsp;<\/li><li>N\u00e3o tamb\u00e9m. Tinha um cliente para visitar, mas foda-se.<\/li><li>Voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 vendedora?<\/li><li>Sou. Vendo macarr\u00e3o instant\u00e2neo. Nissin Miojo.<\/li><li>Que legal!<\/li><li>Super!&nbsp;<\/li><li>Aposto que voc\u00ea seduz seus clientes.<\/li><li>\u00d3bvio!<\/li><li>Eu vendo cursos de ingl\u00eas.<\/li><li>Que sexy! Deve ganhar menos que eu!<\/li><li>Sem d\u00favida! &#8211; eu disse, e rimos.<\/li><li>Agora que j\u00e1 sabemos tudo um do outro, voc\u00ea toma caf\u00e9?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>xxx<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhamos de volta at\u00e9 o Shopping, onde outrora havia um rink de patina\u00e7\u00e3o no gelo. T\u00ecnhamos patinado e ca\u00eddo juntos, naquele mesmo dia. Parecia que quer\u00edamos reencenar nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria, um mundo poss\u00edvel que n\u00e3o aconteceu ao pegarmos o desvio que nos trouxe at\u00e9 ali. A pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o era padronizada, desinteressante, tinha sido obviamente um erro ir para l\u00e1. Ela tomava um caf\u00e9 que n\u00e3o existia naquela \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Voc\u00ea vende miojo para redes de supermercado?<\/li><li>Pelo amor de Deus, para com isso! &#8211; protestou. &#8211; Voc\u00ea viu o que eu vi!<\/li><li>Vi &#8211; mas n\u00e3o queria lembrar. Me veio uma lembran\u00e7a ent\u00e3o, bem mais agrad\u00e1vel.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Lembrei do quarto dela, o Sol brilhando na metade da cama dela, naquela cidade esquecida. A cama e as suas cortinas selvagens. O que quer que ele iluminasse ali hoje, iluminava sozinho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Voc\u00ea ainda mora l\u00e1? &#8211; arrisquei.<\/li><li>N\u00e3o.&nbsp;<\/li><li>Sua m\u00e3e mora ainda?<\/li><li>Minha m\u00e3e morreu. Era alugado.<\/li><li>Sinto muito.<\/li><li>Tudo bem &#8211; ela fez um gesto com a m\u00e3o, enterrando o assunto. &#8211; O que foi aquilo? Por que trazer isso de volta?<\/li><li>Nunca tinha ouvido falar desse pintor. Mas n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que algu\u00e9m traz coisas do Alex &#8211; confessei, com medo de parecer paran\u00f3ico.<\/li><li>N\u00e3o?<\/li><li>O bilhete \u00fanico mensal. Voc\u00ea tem um?&nbsp;<\/li><li>N\u00e3o.&nbsp;<\/li><li>Quando lan\u00e7aram, voc\u00ea tinha que se cadastrar. Mandar uma foto para a secretaria de transportes e podia escolher um template. Tinha quatro op\u00e7\u00f5es. O Anhangaba\u00fa, a Paulista com o MASP, o Audit\u00f3rio no parque do Ibirapuera ou o Teatro Municipal. S\u00e3o os lugares onde o personagem de um conto do Alex, \u201c<em>Oroboros\u201d<\/em>, se n\u00e3o me engano, visita antes de se matar.<\/li><li>S\u00e3o os pontos tur\u00edsticos da cidade tamb\u00e9m! &#8211; Protestou. &#8211; N\u00e3o pode ser coincid\u00eancia?<\/li><li>Claro que pode! Mas por que esses? &#8211; Indaguei. &#8211; E por que, nas imagens, eles est\u00e3o exatamente na mesma perspectiva que o Alex descreve no conto?<\/li><li>Pode ser muito coincid\u00eancia &#8211; insistiu. &#8211; E a perspectiva que ele descreve tamb\u00e9m depende de quem l\u00ea.<\/li><li>Pode ser &#8211; eu disse. &#8211; Mas me faz pensar em que outras ramifica\u00e7\u00f5es a obra dele pode ter tido, e a gente nem sabe. Por que n\u00e3o \u00e9 uma coisa que se conta abertamente. \u201cBaseei meu trabalho em um blog de terror trash dos anos 90\u201d!<\/li><li>\u00c9 verdade, pega at\u00e9 mal falar disso. Pega mal estarmos aqui, termos ido nessa exposi\u00e7\u00e3o! N\u00e3o \u00e9 o tipo de coisa que a gente vai contar no trabalho.<\/li><li>N\u00e3o &#8211; concordei.<\/li><li>Mas que aquelas hist\u00f3rias, nossa fixa\u00e7\u00e3o por elas, fez mais mal do que bem, isso \u00e9 verdade. Eu nem sabia, mas percebi hoje.&nbsp;<\/li><li>Percebeu o qu\u00ea?<\/li><li>As hist\u00f3rias\u2026 Nos legaram um niilismo auto destrutivo, disfar\u00e7ado de amor \u00e0 vida. E quando nos agarramos a algo, afundamos o mundo ao redor &#8211; ela disse, e se calou.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Eu tamb\u00e9m. Traduzia bem o que suspeit\u00e1vamos, agora, ser a fonte de todas as nossas dificuldades. Era verdade para mim, devia ser para ela tamb\u00e9m. E ent\u00e3o me senti mais perto dela do que jamais me sentira. Quis beij\u00e1-la, agarr\u00e1-la pelos cabelos e beij\u00e1-la, mas me detive. Seria feminista?<\/p>\n\n\n\n<p>Toda o meu \u00edmpeto arrefeceu quando ela, de novo distante, declamou:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>\u201c<em>O horror \u00e0 incerteza destila a alma desses desesperados. Enquanto perdem cada vez mais o contato com a realidade. Um dia, essas pessoas em posi\u00e7\u00e3o fetal v\u00e3o se levantar<\/em>\u201d.<\/li><li>Eu lembro desse conto &#8211; eu disse.<\/li><li>Lembra que falamos do bug do mil\u00eanio. Naquele dia, que viemos para c\u00e1?<\/li><li>N\u00e3o &#8211; confessei. &#8211; Desculpe.<\/li><li>Claro que n\u00e3o &#8211; ela disse. &#8211; Mas ele falava sempre do Mal, de personagens que encontram o abismo. Aquele mal que, apesar de n\u00e3o ser consciente, lutava para sobreviver.<\/li><li>E se espalhar &#8211; completei. &#8211; Voc\u00ea acha que esse Mal pode ter evitado o bug do mil\u00eanio porque viu na internet um meio perfeito de se perpetuar?<\/li><li>N\u00e3o d\u00e1 pra saber, mas acho sim &#8211; ela sorriu, feliz que fora eu que formulara essa id\u00e9ia. &#8211; Ele sabia de tudo mesmo. E n\u00f3s n\u00e3o o ouvimos &#8211; ela disse, repetindo a descri\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/li><li>Mas sobrevivemos bem. T\u00e1 bom, n\u00e9?<\/li><li>Muito! &#8211; Concordou. &#8211; Tenho que ir, tenho um cliente \u00e0s quatro e meia.<\/li><li>Adriana &#8211; eu disse, e estendi a m\u00e3o, alcancei o seu bra\u00e7o.&nbsp;<\/li><li>Marcelo &#8211; ela deixou. Como era doce ouvir meu nome assim.<\/li><li>Voc\u00ea t\u00e1 casada? Tem filhos?<\/li><li>Eu saio bastante. E tenho uma filha. Achei que tendo filhos eu pensaria que sou feliz. \u201c<em>Mas agora, penduro as roupas pra secar\u2026<\/em>\u201d &#8211; disse, declamando uma passagem de Alex.<\/li><li>\u201c<em>&#8230; e voc\u00ea acaba de perceber.<\/em>\u201d &#8211; Eu disse, completando.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Apertou a minha m\u00e3o, que estava na dela desde antes. E a recolheu.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Voc\u00ea tem Facebook? &#8211; perguntei, sabendo o qu\u00e3o est\u00fapido eu soava. Uma \u00faltima tentativa de agarrar algo que desvanecia.&nbsp;<\/li><li>N\u00e3o, nada. Tenho telefone, j\u00e1 salvei no seu!<\/li><li>Como assim?<\/li><li>Quando voc\u00ea foi no banheiro &#8211; ela sorriu, se levantando da mesa.<\/li><li>Mas tem senha.<\/li><li>Tentei s\u00f3 uma, aquela do \u201c<em>N\u00famero M\u00e1gico<\/em>\u201d &#8211; ela disse, outro conto dele.<\/li><li>Quando as senhas eram palavras a gente punha o nome de cachorros mortos &#8211; eu disse.<\/li><li>Eu acertaria tamb\u00e9m &#8211; e riu, ri tamb\u00e9m. Estava com pressa. &#8211; Bom dia!<\/li><li>Bom dia &#8211; eu disse, mas ela j\u00e1 tinha se virado.<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Sou fr\u00e1gil, marque-me de vermelho, uma exposi\u00e7\u00e3o de arte inspirada nos contos perdidos de um blogueiro desaparecido h\u00e1 vinte anos reacende o interesse por aquelas hist\u00f3rias. 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