{"id":127,"date":"2020-08-06T09:35:28","date_gmt":"2020-08-06T12:35:28","guid":{"rendered":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/?p=127"},"modified":"2020-08-24T12:07:52","modified_gmt":"2020-08-24T15:07:52","slug":"mussum-ipsum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/ana-luiza-savassi\/mussum-ipsum\/","title":{"rendered":"Sons sem sombras: Cap\u00edtulo 1 &#8211; Sinais"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Os sinos de uma sinagoga acordam uma mulher em seu apartamento, quando marcas no corpo e ta\u00e7as vazias indicam que algo aconteceu na noite passada. <strong>Sons sem sombras<\/strong> \u00e9 um pequeno tratado sobre a solid\u00e3o em S\u00e3o Paulo, e a derrocada mental que atinge os que se at\u00e9m aos apag\u00f5es de uma noite para n\u00e3o pensar nos anos anteriores. <strong>Ana Luiza Savassi<\/strong>, roteirista nas s\u00e9ries Sess\u00e3o de Terapia e Instinto Feminino, mergulha no isolamento da quarentena para trazer uma hist\u00f3ria que desvela o qu\u00e3o fr\u00e1gil a realidade pode ser.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">O<\/span>s abruptos e estridentes sinos da sinagoga me despertam de um sono sem sonho. Meus olhos se recusam a abrir, claramente precisavam de mais algumas horas repousados, blindados, alheios ao mundo. Quando come\u00e7o a me entender como gente, penso que deve ser final de semana.&nbsp;Os sinos s\u00f3 tocam aos s\u00e1bados, muito raramente aos domingos, e se revezam entre manh\u00e3 e tarde. Deve ser n\u00e3o, <em>com certeza<\/em> \u00e9. S\u00f3 assim para que qualquer coisa tenha mais ansiedade em fazer barulho do que o meu despertador em dia \u00fatil. Tateio minha cama em busca do celular para comprovar o que j\u00e1 sei: <em>s\u00e1bado<\/em> e, ao meu ver, demasiadamente cedo para qualquer tipo de manifesta\u00e7\u00e3o, inclusive f\u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu corpo implora mais descanso. At\u00e9 ensaio um retorno ao resgatar o travesseiro que insisto em dizer que n\u00e3o consigo dormir sem e que invariavelmente acorda abandonado no ch\u00e3o. Mesmo com os olhos fechados, os meus ouvidos sem blecautes enxergam o mundo vivo fora das minhas paredes finas. Carros passando, p\u00e1ssaros cantantes, barulhos de freio, incompreens\u00edveis conversas, um avi\u00e3o distante sinalizam que dormir \u00e9 perder tempo. A ansiedade toma conta de mim e, mesmo tomada pelo sono e a in\u00e9rcia, atendo ao seu chamado.<\/p>\n\n\n\n<p>Automaticamente vou at\u00e9 o banheiro lavar o rosto. Nenhuma m\u00ednima luz pode encontrar minha pele que adormeceu com \u00e1cido glic\u00f3lico antirrugas, anti-idade, anti-tudo-que-\u00e9-inevit\u00e1vel. Esse \u00e1cido, que passo todos as noites religiosamente, faz promessas milagrosas mas, at\u00e9 agora, s\u00f3 deixou meu rosto ardendo e meus len\u00e7\u00f3is sujos. Fico pensando como fazem os que s\u00e3o casados e mant\u00eam essa cara e supervalorizada rotina de <em>skincare<\/em>. Dormem cheios de cremes, melecados? Dividem n\u00e3o s\u00f3 a cama, os boletos mas tamb\u00e9m os h\u00e1bitos que todos preferimos fazer quando estamos sozinhos? Na minha cabe\u00e7a, casamentos s\u00e3o como comercial de margarina exibido em um conto de fadas: totalmente livres de problemas de pele, peso, h\u00e1lito, pregui\u00e7a, tristeza, t\u00e9dio, solid\u00e3o e repentinas vontades de se ficar totalmente s\u00f3. Longe de como eu me vejo toda manh\u00e3. N\u00e3o entendo a raz\u00e3o de se casar se n\u00e3o for para ser assim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de lavar bem o rosto, que fica vermelho de tanto esfregar, encontro meus \u00f3culos. Sem eles vejo apenas o que est\u00e1 muito pr\u00f3ximo aos meus olhos e borr\u00f5es que eu tento n\u00e3o trombar. Agora com o mundo n\u00edtido, comprovo o que senti ao enxaguar minha pele: uma espinha incipiente e, o pior, rugas mais acentuadas. Penso logo em <em>botox <\/em>e <em>roacutan<\/em>, mas n\u00e3o demoro a abortar essa combina\u00e7\u00e3o de envelhecimento n\u00e3o t\u00e3o precoce e adolesc\u00eancia j\u00e1 bem tardia. Prefiro ent\u00e3o controlar o control\u00e1vel. Com uma pin\u00e7a, tiro um a um daqueles pelos que nasceram fora das minhas sobrancelhas arqueadas. Admiro minhas charmosas covinhas nas bochechas que d\u00e3o o ar da gra\u00e7a quando eu sorrio ou pressiono meus l\u00e1bios. Talvez sejam o que eu mais goste em mim. Dou uma olhada geral no meu rosto e chego a mais conformada conclus\u00e3o que at\u00e9 estou bem para os meus <em>mais ou menos<\/em> 37 anos. Brigar com o inevit\u00e1vel \u00e9 mais in\u00fatil que dormir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na cozinha,<strong> <\/strong>equipada de todos os utens\u00edlios necess\u00e1rios mas livre de qualquer personalidade, coloco a \u00e1gua para ferver e ao me aproximar da garrafa t\u00e9rmica, o seu espelhado torto e emba\u00e7ado refletem n\u00e3o s\u00f3 sua pouca qualidade como v\u00e1rias manchas no meu bra\u00e7o. Ao recorrer ao espelho, constato que n\u00e3o s\u00f3 um, mas os dois bra\u00e7os est\u00e3o cobertos delas. Dois ou tr\u00eas roxos fazem parte da normalidade de uma pele p\u00e1lida como a minha, assim como as veias que saltam aos olhos. S\u00f3 que n\u00e3o daquele jeito, nos dois lados, quase que id\u00eanticos. As bolhas de \u00e1gua fervendo que esqueci no fogo me roubam a aten\u00e7\u00e3o, e ao mesmo tempo que desligo o fog\u00e3o logo encontro a justificativa mais f\u00e1cil: deve ter sido na academia ou algum esbarr\u00e3o que, na hora, n\u00e3o me dei conta. De forma pr\u00e1tica, planejo que se fizer muito calor na semana posso tentar cobri-los com algum corretivo eficiente. Talvez s\u00f3 um da <em>Guerlain <\/em>seja capaz disso, daqueles que escondem at\u00e9 tatuagem. Uma quase amiga minha, que dividia a cama e os boletos com um homem violento, ficou expert em combinar cores de corretivos para esconder as marcas da sua rela\u00e7\u00e3o, assim como ficou craque em arrumar malas, fugir de casa e desaparecer sem se despedir de ningu\u00e9m. Nem mesmo de mim &#8211; apesar do seu marido duvidar disso at\u00e9 hoje &#8211; logo quando est\u00e1vamos virando confidentes. O que restou dela foram suas dicas de maquiagem e um su\u00e9ter que me emprestou um dia antes de sumir para sempre.&nbsp; Lembrar dessa hist\u00f3ria me faz esquecer os meus roxos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto espero minhas torradas saltarem, planejo mentalmente um s\u00e1bado tranquilo, bem mais frustrante do que a minha idade e o meu estado civil esperam de mim.&nbsp; Da cozinha, consigo enxergar a luz do sol que invade a sala pela porta de vidro da varanda. Aqueles quase <em>nenhum<\/em> metros quadrados que foram determinantes para eu fechar meu contrato de aluguel.&nbsp;Um cantinho onde s\u00f3 cabem uma mesinha, duas pequenas cadeiras&nbsp;e alguns vasos de plantas \u00e9 o meu lugar favorito no mundo. Perco-me por horas naquele pequeno ref\u00fagio exposto ao sol, ouvindo as m\u00fasicas da minha vizinha, lendo meus livros, trabalhando e, principalmente, sem fazer nada, apenas observando as pessoas que passam pela rua e que moram no meu raio de vis\u00e3o. Puro voyeurismo, mas sem a parte er\u00f3tica. Nunca achei muita gra\u00e7a em ver outras pessoas fazendo sexo. Para mim \u00e9 a mesma coisa de ver algu\u00e9m comendo uma refei\u00e7\u00e3o saborosa ou mergulhando em um mar paradis\u00edaco, s\u00f3 d\u00e1 vontade. Como toda manh\u00e3, \u00e9 l\u00e1 que sempre fa\u00e7o meu desjejum e hoje n\u00e3o seria diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda na cozinha, viro uma x\u00edcara de caf\u00e9 puro em poucos goles. Detesto seu gosto, inclusive seu cheiro, mas s\u00f3 depois de <em>cafeinamente<\/em> abastecida consigo pensar, digamos, com lucidez. Meu sono \u00e9 um pouco mais resistente que o normal. N\u00e3o vejo tantas pessoas sufocando um bocejo, co\u00e7ando os olhos ou lutando contra a vontade de voltar ao subconsciente quanto eu.&nbsp;Subconsciente que mais parece o breu de uma gruta sem eco, j\u00e1 que eu nunca sonho. Queimo minha l\u00edngua com a ansiedade de acabar logo com aquele mal necess\u00e1rio, e como uma crian\u00e7a diante de um rem\u00e9dio ruim, coloco duas bolachas recheadas na boca para disfar\u00e7ar seu gosto. Depois da obriga\u00e7\u00e3o, o deleite: meio mam\u00e3o, duas torradas, uma generosa fatia de queijo canastra, geleia e suco de laranja. Segurando minha bandeja, atravesso a porta de vidro da varanda e dou de cara com os resqu\u00edcios de uma cena de um filme que eu n\u00e3o vi. Na minha mesinha, as sobras de uma noite anterior animada: duas ta\u00e7as sujas acompanhadas de tr\u00eas garrafas vazias do meu vinho favorito, e dois pratos com sobras de parma, brie e azeitonas. Olho para tr\u00e1s buscando algum sentido<strong>,<\/strong> como se o resto do apartamento pudesse me explicar o que minha mem\u00f3ria n\u00e3o fazia ideia. Aperto meus olhos como se eu fosse acordar de um sonho in\u00e9dito, bem moderno, 3D, onde sentimos cheiros e queimamos a l\u00edngua.&nbsp;Abandono minha bandeja na mesa de centro da sala e me sento at\u00f4nita no sof\u00e1. Esfregar meu rosto com a esperan\u00e7a de que as pe\u00e7as do meu quebra cabe\u00e7a mental se encaixem, \u00e9 totalmente em v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou at\u00e9 o banheiro lavar novamente o rosto na esperan\u00e7a de voltar a fita, o tempo, reiniciar um dia que mal come\u00e7ou. Antes de abrir a torneira, percebo que o box est\u00e1 emba\u00e7ado e com a toalha de visitas estendida. N\u00e3o percebi nada daquilo quando acordei, mas agora prestando aten\u00e7\u00e3o, ainda dava para sentir o cheiro de um banho rec\u00e9m tomado. Tanto a toalha quanto o tapete encostado na sa\u00edda do box est\u00e3o completamente \u00famidos. Algu\u00e9m tinha tomado banho ali e n\u00e3o fazia muito tempo. A \u00fanica certeza que tenho, pelo resqu\u00edcio do meu \u00e1cido glic\u00f3lico que tive que fazer esfor\u00e7o para tirar, \u00e9 que n\u00e3o tinha sido eu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de alguns minutos paralisada, encontro ref\u00fagio em uma das cadeiras da varanda e remonto a noite anterior:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um imprevisto no trabalho, consegui sair de l\u00e1 mais ou menos \u00e0s 22 horas. Como era o dia do meu rod\u00edzio, pedi um carro por aplicativo e fui direto para casa. Faminta, fiz um mexid\u00e3o com tudo que tinha na geladeira, inclusive uns ingredientes com validade duvidosa que preferi n\u00e3o conferir, esperando que com a ignor\u00e2ncia eles n\u00e3o me fizessem mal. Depois de um pregui\u00e7oso banho, passei meu \u00e1cido milagroso em movimentos circulares ascendentes. Liguei imediatamente um ventiladorzinho de m\u00e3o para aliviar a absurda ard\u00eancia que ele causa em minha pele excessivamente sens\u00edvel.&nbsp;No meu notebook fiz minhas rotineiras, r\u00e1pidas e, como sempre, inf\u00e9rteis pesquisas. Achei um document\u00e1rio na TV para relaxar, um desses muitos sobre crimes n\u00e3o resolvidos e pessoas desaparecidas. Enquanto passavam os cr\u00e9ditos iniciais, liguei o repelente eletr\u00f4nico na tomada para driblar os fastidiosos, e insistentemente presentes, pernilongos. Configurei a fun\u00e7\u00e3o <em>sleep<\/em> da TV. Ajustei em um volume ameno para que as trilhas bem mais altas que os di\u00e1logos n\u00e3o me despertem. Abracei meu indispens\u00e1vel travesseiro e tentei assistir ao document\u00e1rio sem encostar em sua fronha e nos len\u00e7\u00f3is de linho que ainda estou pagando em, nem t\u00e3o, suaves presta\u00e7\u00f5es. E, depois disso, s\u00f3 os sons da sinagoga.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha reconstitui\u00e7\u00e3o teve trilha sonora oferecida por minha vizinha, Ad\u00e9lia. Uma precoce vi\u00fava de uns 50 anos que mora sozinha e que, diferente dos sinos, ainda n\u00e3o identifiquei nenhum padr\u00e3o para suas rotinas de ensaio. Ela j\u00e1 se apresentou em pomposos concertos por todo mundo, e quando n\u00e3o est\u00e1 em turn\u00ea, o Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo \u00e9 sua segunda casa.&nbsp;Ad\u00e9lia prefere roupas largas e elegantes, assess\u00f3rios pequenos, e usa sempre um coque bem feito; \u00e9 perfeccionista com seu penteado assim como \u00e9 com sua afina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, eu nunca a vi, muito menos me falaram sobre ela. Tudo que <em>sei <\/em>\u00e9 baseado em sua voz, repert\u00f3rio e enorme talento.&nbsp;Quando canta \u00e9 sempre uma \u00f3pera, bem bonita, \u00e0s vezes bem dram\u00e1tica, \u00e0s vezes melanc\u00f3lica, sempre emocionante. Fico pensando como deve ser quando acompanhada por uma grande orquestra. Esporadicamente, Ad\u00e9lia prefere tocar s\u00f3 uma melodia em seu piano, e quando reconhe\u00e7o a m\u00fasica, sua letra, que ela escolhe n\u00e3o cantar, parece decifrar a minha alma. Hoje, Ad\u00e9lia escolheu uma \u00f3pera que quase era poss\u00edvel tocar sua tristeza. Em alguns momentos sua respira\u00e7\u00e3o se perdia por um solu\u00e7o, quase um choro, toda uma ang\u00fastia que ela transforma em beleza e que generosamente divide com alguns quarteir\u00f5es do bairro de Santa Cec\u00edlia. Esta Santa, que t\u00e3o pouco se sabe, teria cantado a Deus ao morrer, da\u00ed o t\u00edtulo de padroeira dos m\u00fasicos e da m\u00fasica sacra. Sinto que Ad\u00e9lia canta com um desalento seguido de reden\u00e7\u00e3o que se assemelham a isso. O canto, os suspiros, os sons e ao final um segundo de sil\u00eancio que \u00e9 poss\u00edvel ouvir e que, seu pudesse apostar, \u00e9 o que antecede a morte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embalada pela m\u00fasica, incorporo a cientista forense em busca de alguma pista, qualquer m\u00ednimo rastro, que explique o que aconteceu naquela noite. Examino nas ta\u00e7as se h\u00e1 marcas de batom ou cheiro de cigarro. Vasculho o lixo atr\u00e1s de um bilhete, de um recibo, de um preservativo&#8230; Nenhum perfume nem nas fronhas, nem no len\u00e7ol. O ch\u00e3o est\u00e1 impecavelmente limpo. Procuro at\u00e9 no ralo cabelos que n\u00e3o sejam meus. E, principalmente, crio coragem e me investigo. Sexo realmente tem cheiro, mas a \u00fanica coisa que sinto \u00e9 o meu pr\u00f3prio. Pego meu celular, nada de mensagens, nada de chamadas feitas ou recebidas. Olho o aplicativo e minha \u00faltima corrida foi mesmo do trabalho para a casa.&nbsp; Entro nos meus contatos, e enquanto des\u00e7o a barra de rolagem na esperan\u00e7a de encontrar um n\u00famero salvo com o nome<em> a pessoa que eu n\u00e3o me lembro e passou a noite aqui<\/em>, sou interrompida por uma mensagem:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>J\u00e1 acordei, se quiser pode vir buscar o Zeca.&nbsp;=D<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Socorro, o Zeca!<\/em> Este mist\u00e9rio, claro eufemismo para completo <em>nonsense<\/em>, me fez esquecer dele, ou seja, de tudo. Confesso que n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que ele tem que passar a noite na casa da monitora da creche pois n\u00e3o consegui busca-lo a tempo. A escolinha funciona at\u00e9 \u00e0s 19h. Quem, em S\u00e3o Paulo, consegue chegar em qualquer lugar em uma sexta-feira, a esse hor\u00e1rio?&nbsp;Talvez os que tenham helic\u00f3ptero&#8230; Creches facilitam a nossa vida, mas tamb\u00e9m tencionam nosso pesco\u00e7o com seus rigorosos hor\u00e1rios de entrada, sem dizer o de sa\u00edda. Quase 10 da noite, ao avisar Rita que eu j\u00e1 estava a caminho, recebi o sucinto comunicado de que Zeca tinha brincado o dia todo e, assim como ela, j\u00e1 estava na cama. Uma forma educada de dizer que ir busc\u00e1-lo \u00e0quela hora s\u00f3 iria incomod\u00e1-la ainda mais. Zeca adora Rita, e a adora\u00e7\u00e3o \u00e9 rec\u00edproca. Assim, quando cometo essas falhas, penso se tratar de uma festa do pijama, uma noite na casa de amigos. Rita tamb\u00e9m tem filhos. <em>Ele deve estar adorando. <\/em>E minha culpa me faz acreditar cegamente em cada palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Prendo meu cabelo de qualquer jeito, passo filtro solar, concluo que meus poros faciais devem desconhecer o que \u00e9 viver sem serem sufocados por alguma f\u00f3rmula, e saio correndo. Rita mora a alguns quarteir\u00f5es de casa. Aquela dist\u00e2ncia que cansa andando, mas que envergonha ir de carro \u00e0 luz do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Passo apressadamente pela sinagoga que fica na esquina, mas que naquela manh\u00e3 parecia habitar a sala ao lado. Por um segundo, a encaro e a ofendo mentalmente. Penso que se tivesse tocado seus sinos um pouco mais cedo, talvez daria tempo de flagrar a inc\u00f3gnita que invadiu minha casa e roubou minha paz. Minha cal\u00e7a de pijama estampada com personagens infantis, minha blusa de alcinha e meus chinelos, contrastam com os ternos e vestidos dos meus vizinhos judeus que acabam de deixar alguma cerim\u00f4nia sabendo muito bem o que fizeram na noite passada. Aperto o passo, corro os gigantescos quarteir\u00f5es da Albuquerque Lins enquanto o sol \u00e9 impiedoso. Enfim, ofegantemente suada, preciso recuperar meu folego diante do pr\u00e9dio de Rita que, por j\u00e1 estar na portaria, revela sua ansiedade em ter um s\u00e1bado sem responsabilidades al\u00e9m das suas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao me ver, Zeca faz a festa. Nada de tristeza. Nada de decep\u00e7\u00e3o. Nada de cobran\u00e7as. Nada de m\u00e1goa. Nada de humano. Seus olhinhos brilhantes e seu rab\u00e3o de vira lata para l\u00e1 e para c\u00e1, s\u00e3o s\u00f3 amor e alegria. Rita e seus tr\u00eas cachorros se despedem dele que agora s\u00f3 tem olhos pra mim. Ao ser lambida e perdoada por Zeca, me lembro de quando nos conhecemos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Estava retornando de um bate e volta a Belo Horizonte onde participei de um semin\u00e1rio. Meu avi\u00e3o acompanhado de mais tr\u00eas demoram a pousar por falta de pista livre em Congonhas. Em S\u00e3o Paulo \u00e9 assim, congestionamento at\u00e9 no c\u00e9u. Ficamos sobrevoando o aeroporto e enquanto as pessoas ficavam cada vez mais nervosas, eu permanecia na minha prov\u00e1vel irritante tranquilidade. Eu gosto de avi\u00e3o, mas n\u00e3o exatamente por estar presa em uma caixa de ferro a quil\u00f4metros do ch\u00e3o e agora com o risco de o combust\u00edvel acabar. Gosto porque, diferente da minha varanda, meu voyeurismo ganha uma l\u00edmpida trilha sonora. Me fascina observar os compromissos, as implic\u00e2ncias em fam\u00edlia, as inveross\u00edmeis juras dos apaixonados,&nbsp;trabalhadores<em> hiperprodutivos<\/em>, executivos hipertensos, os dedos inspirados dos escritores, as curiosas rea\u00e7\u00f5es dos leitores, turma de amigos cheia de expectativas ou ostentando suas aventuras, o dinamismo dos comiss\u00e1rios, os constrangedores roncos altamente incontrol\u00e1veis e o papo de desconhecidos que o destino uniu por uma mesma fileira e que, apesar de trocarem promessas e contatos, muito dificilmente voltar\u00e1 a junt\u00e1-los. Experi\u00eancia pr\u00f3pria&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>No meio da minha prazerosa <em>bisbilhotagem<\/em> do cotidiano alheio, \u00e9 autorizado, finalmente, o nosso pouso. Sexta- feira, final de tarde, garoa \u2013 que, convenhamos, hoje em dia tem mais fama do que ocorr\u00eancia &#8211; e um aeroporto lotado eram um retrato do caos. De dentro do avi\u00e3o, pessoas sentindo-se injuriadas gravam dram\u00e1ticas mensagens de voz relatando a trag\u00e9dia&nbsp;que acabaram de passar. Mesmo ainda estando inteiramente vivas. Nada \u00e9 mais pat\u00e9tico do que um chilique, mas s\u00f3 percebemos isso quando&nbsp;n\u00e3o \u00e9 o nosso. Minha pose de pessoa evolu\u00edda desaparece assim que constato que n\u00e3o encostamos em nenhum finger. O fato de ter que esperar no meio da pista o \u00f4nibus para nos levar at\u00e9 o aeroporto faz com que eu me torne mais um daqueles que se juntam para recarregar a pilha do mau humor e das queixas infrut\u00edferas.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de tanto, transgredindo a regra de s\u00f3 poder pedir carro de aplicativo em determinado local, fui para entrada principal de Congonhas esperando aproveitar o de algu\u00e9m que acabara de chegar. Minha exaust\u00e3o engoliu meu senso de coletividade, qualquer minuto a menos para estar em casa valia todo tipo de corrup\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O transito chegava a ser sufocante pela sua aparente infinitude. No meio de toda aquela balb\u00fardia, reparei em uma fam\u00edlia: um casal e seus dois filhos que,&nbsp;mesmo ainda crian\u00e7as, eram marrentos como adultos. E logo atr\u00e1s o que realmente chamou minha aten\u00e7\u00e3o: um enorme e lindo cachorro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher e seus filhos entraram apressados no sagu\u00e3o de embarque, enquanto o pai pegou uma bolinha e a lan\u00e7ou para o cachorro ir buscar. Parecia que enquanto est\u00e1vamos em um mix de <em>Sodama e Gomorra<\/em>, ele gozava um universo paralelo no meio do Ibirapuera. Ignorando o caos, aquele vira lata lindo, dourado e cheio de energia n\u00e3o demorou muito para alcan\u00e7ar o seu brinquedo, mas n\u00e3o foi t\u00e3o r\u00e1pido a tempo de ver a sua pr\u00f3pria fam\u00edlia virar-lhe as costas. O homem,&nbsp; ap\u00f3s o lan\u00e7amento, correu para dentro do aeroporto como um fugitivo. Incr\u00e9dula, voltei meus olhos para o cachorro, que com sua bolinha na boca tentava encontrar o seu dono.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sua express\u00e3o de alegria logo se transformou enquanto desviava das pessoas que ignoravam sua presen\u00e7a. Os far\u00f3is dos carros iluminavam sua afli\u00e7\u00e3o, seus olhos dan\u00e7avam desesperados atr\u00e1s daqueles sobre os quais eu nada sabia, mas j\u00e1 odiava. Como c\u00e3o sem dono, h\u00e1 alguns minutos literalmente, seguindo o rastro que s\u00f3 seu focinho enxergava, invadiu o aeroporto. Precisou de alguns funcion\u00e1rios para ser alcan\u00e7ado e, naquele momento eu entendi porque pessoas comuns n\u00e3o podem ter porte de armas. Apesar das buzinas, da chuva, do da alta fala\u00e7\u00e3o, seu choro uivado sobrepunha todo o resto.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista do aplicativo teve que buzinar para ganhar minha aten\u00e7\u00e3o e, quando teve sucesso, tive uma estranha sensa\u00e7\u00e3o ao constatar que estava a poucos passos de abandonar aquele inferno. Os saltos e o formato dos meus sapatos j\u00e1 molhados torturavam minhas pernas e meus dedos, fazendo com que um banco acolchoado valesse mais que milh\u00f5es. Abri a porta do carro enquanto raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o duelavam dentro de mim no tempo de um alongado suspiro. Com cora\u00e7\u00e3o ansioso, me desculpei com aquele simp\u00e1tico condutor, abandonei o carro e me guiei at\u00e9 aquele choro agudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, se ainda me sobravam d\u00favidas a respeito da minha decis\u00e3o, elas evaporaram assim que Zeca &#8211; vi seu nome gravado na coleira &#8211;&nbsp; correu em minha dire\u00e7\u00e3o como se me conhecesse desde sempre. O carinho era tanto que as pessoas acharam realmente que eu era sua dona. Parecia mesmo que Zeca me reconhecia. Hoje eu j\u00e1 acho que ele se reconheceu em mim. N\u00f3s nos reconhecemos um no outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Zeca entrou na minha vida e nunca mais foi f\u00e1cil pegar qualquer meio de transporte, especialmente para sair da cidade. Naquele dia, ap\u00f3s v\u00e1rios cancelamentos de corrida ao verem seu tamanho e seu pelo molhado, um senhor mal humorado com a vida, mas de bem com os caninos, aceitou Zeca em seu carro. Com amargura,&nbsp;foi do engarrafado trajeto do aeroporto de Congonhas at\u00e9 Santa Cec\u00edlia, repetindo que quanto mais ele conhecia os homens &#8211; principalmente as mulheres &#8211; mais ele amava os animais. Ficou claro para mim que ali dentro existia n\u00e3o apenas um, mas dois cora\u00e7\u00f5es partidos, por\u00e9m com certeza s\u00f3 um deles eu levaria para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo desprovidos de car\u00e1ter e cora\u00e7\u00e3o, me desprendo do meu \u00f3dio e orgulho para admitir que a antiga fam\u00edlia de Zeca brilhou na fun\u00e7\u00e3o de educa-lo. Tirando um xixi em cada canto da casa assim que chegou, para deixar claro quem mandava ali agora, Zeca sempre se comportou como um lorde <em>bon vivant<\/em>. Um pouco carente na primeira noite, fez com que a promessa dele jamais dormir na minha cama fosse quebrada ali mesmo. E, <em>ali mesmo<\/em>, descobri que ele n\u00e3o era muito f\u00e3 da \u00fanica condi\u00e7\u00e3o estipulada: banho. Na manh\u00e3 seguinte, fiquei feliz com a conclus\u00e3o do veterin\u00e1rio de que ele ainda era novinho, tendo mais ou menos 3 anos de idade. E esse \u00e9 mais ou menos o tempo que j\u00e1 estamos juntos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto pe\u00e7o desculpas \u00e0 Rita, n\u00e3o consigo ignorar seu sorriso inexplicavelmente maldoso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Muito obrigada mesmo, Rita. Na hora que eu estava saindo tive que substituir uma professora que j\u00e1 me salvou mil vezes. N\u00e3o tive como negar \u2013 disse, enquanto sigo agachada brincando com Zeca e os outros cachorros.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Deixa de bobagem, Vick . Voc\u00ea sabe que eu adoro o Zeca. \u2013 me dando uma olhada geral &#8211; A noite foi boa, hein?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Como? \u2013 respondo gelada e me levanto dura.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Me conta tudo sobre ele! \u2013 revelando-se uma Rita animada, uma vers\u00e3o que eu nunca tinha visto. Seus sorrisos ela s\u00f3 distribui em mensagens de texto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea me viu com algu\u00e9m? \u2013 receosa da resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Rita assente sorrindo, sigo tentando repostas mais verbais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Como que ele era? Quer dizer, voc\u00ea achou ele bonito? Alto?<\/p>\n\n\n\n<p>Rita aponta para os meus bra\u00e7os. Na correria, sa\u00ed descoberta deixando toda a minha afli\u00e7\u00e3o \u00e0 mostra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Vi nada, s\u00f3 estou vendo as digitais que ele deixou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ah, para de bobagem, isso foi academia&#8230; \u2013 tento disfar\u00e7ar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211;&nbsp; Que m\u00e3ozona ele tem. Nossa&#8230;&nbsp; \u2013 Rita me ignora e se lamenta &#8211;&nbsp; N\u00e3o me lembro a \u00faltima vez que senti o peso de um homem em cima de mim.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Pelo visto eu tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/em> Sem muita paci\u00eancia para meu comportamento blas\u00e9 e &#8211; para ela &#8211; sonso, Rita aproxima-se de mim reproduzindo com as pr\u00f3prias m\u00e3os que aqueles roxos t\u00eam exatamente o formato de algu\u00e9m me pegando com for\u00e7a pelos bra\u00e7os.&nbsp;As marcas redondas se encaixam em seus dedos ao me apertarem, apesar de mais distantes e mais grossos que os dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Zeca pula e nos separa. Por mais que goste de Rita, minha posi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel aciona o seu instinto protetor.&nbsp;At\u00e9 faria sentido \u201cesquec\u00ea-lo\u201d para fazer o que Rita imagina que eu fiz. Quando fa\u00e7o sexo, preciso controlar os sons do meu prazer para que Zeca n\u00e3o arrombe a porta, preventivamente trancada, e ataque qualquer pessoa que esteja em cima, embaixo ou embaralhado em mim. Neste momento, decido n\u00e3o destruir as fantasias de Rita e, sem confirmar literalmente, imito seu sorrio malicioso como se tivesse sido pega e confessa. Melhor ter vivido uma noite t\u00f3rrida de amor do que assumir meu suspeito e controverso apag\u00e3o. At\u00e9 porque eu n\u00e3o sei mesmo o que aconteceu. E sexo est\u00e1 longe de ser uma das piores hip\u00f3teses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, tomamos o caminho de casa. Quando me dou conta, estamos na porta do nosso pr\u00e9dio e nem me lembro de ter andado at\u00e9 l\u00e1. Acho, na verdade tenho certeza, de que foi ele que me conduziu at\u00e9 em casa e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Eu s\u00f3 conseguia pensar <em>ta\u00e7as, banho, pratos, dedos, marcas, marcas de dedos.<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao colocar meu <em>dedo<\/em> no port\u00e3o de biometria,&nbsp;lamento a tecnologia de portaria remota, onde os porteiros foram substitu\u00eddos por atendentes em uma central, tipo <em>call center<\/em>, que nem Deus sabe onde \u00e9. Modernidades que furtam nossos direitos de termos um porteiro presencial para vigiar nossas vidas, fofocar sobre elas, nos deixar sem gra\u00e7a ao acord\u00e1-los de madrugada e para me dizer quem saiu da minha casa hoje de manh\u00e3! Olhei para as c\u00e2meras de seguran\u00e7a e tive a \u00f3bvia ideia de pedir para ter acesso \u00e0s suas imagens. S\u00f3 que o que iria alegar? <em>N\u00e3o sei o que fiz ontem \u00e0 noite?<\/em> Mentir que fui furtada? Bem nerd,&nbsp;eu j\u00e1 tinha lido o manual do condom\u00ednio de cabo a rabo e sabia bem que para assistir \u00e0s grava\u00e7\u00f5es, precisava apresentar um boletim de ocorr\u00eancia. Toda uma burocracia para preservar a intimidade dos moradores e, aparentemente, da pessoa que entrou na minha casa, me deu um boa noite cinderela, foi embora sem deixar nenhum bilhete, mas n\u00e3o sem antes se lavar ao inv\u00e9s de lavar as minhas lou\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Zeca gosta de sair, mas como todos n\u00f3s, adora voltar para casa. Observo seu comportamento esperando que o seu faro identifique algo que o meu olfato humano deixou escapar. Sempre que conhe\u00e7o algu\u00e9m ou que acaricio outro cachorro por meio segundo, quando nos encontramos Zeca reage desconfiado e agitado. Ele n\u00e3o tinha estranhado nada at\u00e9 ent\u00e3o, mas est\u00e1vamos na rua envoltos a in\u00fameras distra\u00e7\u00f5es para seu focinho. Em casa poderia ser diferente&#8230; Que nada! Zeca nunca esteve t\u00e3o normal. E assim, inspirada por policiais com seus farejadores de drogas, conduzo meu <em>santo<\/em> cachorro por todos os cantos da casa. O \u00fanico sinal que Zeca faz \u00e9 de t\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentando encerrar este assunto de vez, jogo fora as garrafas de vinho, lavo as ta\u00e7as e pratos, seco, os devolvo para o arm\u00e1rio e coloco a toalha de h\u00f3spedes, e at\u00e9 o tapete, na m\u00e1quina de lavar. Parecendo uma criminosa, elimino os rastros como se isso eliminasse o que tivesse acontecido.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No banho, reparo os detalhes das marcas que eu n\u00e3o tenho como apagar. O espelho que cobre inteiramente a parede oposta ao chuveiro, n\u00e3o deixa de expor nenhum cent\u00edmetro do meu corpo. Algumas marcas j\u00e1 t\u00eam tempo que me cobrem. As novas me fazem sentir arrepios e, ao pression\u00e1-las, dor. N\u00e3o consigo parar de pensar em quem poderia estar refletido ali hoje de manh\u00e3. Olho os vidro do box com cuidado, procurando algum desenho ou sinal. Hesito por alguns segundos mas acabo escorregando minha m\u00e3o e me toco, no anseio de que possa acordar alguma lembran\u00e7a. Enquanto passeio em mim, fecho os olhos tentando voltar no tempo que eu perdi e achar qualquer pegada mental, mas a \u00fanica coisa que eu encontro \u00e9 um inesperado prazer e uma dor de cabe\u00e7a que fica cada vez mais latente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um almo\u00e7o sem gra\u00e7a e sem sentir o gosto do um quarto da comida que eu n\u00e3o desperdicei, me deito no sof\u00e1. Zeca vem correndo me fazer companhia, roubando mais da metade do espa\u00e7o. Um dos sons que mais me alegra e acalma \u00e9 o barulhinho de suas patas no meu ch\u00e3o de taco. N\u00e3o deixo de pensar que se Zeca estivesse comigo, talvez meu dia seguiria conforme planejado: sem nenhuma \u2013 nova &#8211; ang\u00fastia. Ao abandon\u00e1-lo com Rita, eu que fiquei s\u00f3. Ao pensar nisso, fico mais atormentada: ser\u00e1 que sabiam que eu estava sozinha? Ser\u00e1 que al\u00e9m de observar, eu tamb\u00e9m sou observada? Minha exaust\u00e3o mental e natureza fazem com que eu n\u00e3o demore a pegar no sono.&nbsp;Depois de dois minutos ou duas horas, o interfone interrompe minha fuga. Parece mesmo que o dia me quer acordada. Desesperado de alegria, os latidos de Zeca sufocam as palavras do porteiro remoto &#8211; que pode estar na China -, e com muito esfor\u00e7o de ambos os lados, entendo que tem uma entrega para mim. Compras online s\u00e3o um dos meus esportes favoritos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chego na portaria,&nbsp;vejo um entregador com um imenso buqu\u00ea de flores. Fico sem saber como agir, at\u00e9 que ele elimina minhas poucas op\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Vict\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; S&#8230; So.. Sou eu. \u2013 pego o buqu\u00ea no autom\u00e1tico, enquanto Zeca n\u00e3o para de fazer festa para o rapaz que brinca com ele de volta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vizinha animada, que entra no pr\u00e9dio ao mesmo tempo, vibra com o meu presente e sua empolga\u00e7\u00e3o nos acompanha at\u00e9 o meu andar. Ao entrar em casa, fico na d\u00favida se agradeci ou n\u00e3o o entregador. Se dei boa tarde para a vizinha. Desprezo quem n\u00e3o&nbsp;faz o m\u00ednimo. S\u00f3 que hoje outra preocupa\u00e7\u00e3o suplantou as boas maneiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ajeitar o buqu\u00ea acompanhado por v\u00e1rios espirros, vejo um pequeno cart\u00e3o mergulhado no meio de tantas flores do campo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Adorei nossa noite.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sem assinatura, sem caligrafia, essas tr\u00eas palavras datilografadas em m\u00e1quina de escrever n\u00e3o me dizem nada, exceto que n\u00e3o dava mais para fingir que tive um surto de sonambulismo com esquizofrenia e bebi 3 garrafas de vinhos em duas ta\u00e7as diferentes para n\u00e3o me sentir t\u00e3o s\u00f3. Era real. Algu\u00e9m esteve mesmo aqui&nbsp;em casa. E aparentemente adorou. N\u00e3o parecia mais um bandido que me drogou e fez tudo que podia, inclusive adivinhar minhas flores favoritas. E ao que <em>pouco <\/em>indica, sabe ser intenso na sombra da noite e gentil \u00e0 luz do sol. O que eu n\u00e3o me lembro foi tudo, menos ordin\u00e1rio.&nbsp;Nesses nossos tempos, prova de amor \u00e9 telefonar ao inv\u00e9s de mandar mensagem. Enviar um buqu\u00ea de flores me escapa a defini\u00e7\u00e3o. Algo que, <em>eu acho<\/em>, nunca vi fora das centenas de filmes e livros \u2013 <em>os antigos<\/em> &#8211;&nbsp; que cobrem minhas paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu corpo se arrepia enquanto minha nuca queima ao mesmo tempo que chego a sentir mini fincadas na cabe\u00e7a. Zeca me encara como se enxergasse meu medo, um dos muitos sentimentos e invulgares sensa\u00e7\u00f5es que tomam conta de mim. S\u00f3 que os meus pensamentos se resumem a apenas um, como um mantra dentro da minha mente:<\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que isto est\u00e1 acontecendo\u2026 de novo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Minha vizinha volta a cantar&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sinos de uma sinagoga acordam uma mulher em seu apartamento, quando marcas no corpo e ta\u00e7as vazias indicam que algo aconteceu na noite passada. Sons sem sombras \u00e9 um pequeno tratado sobre a solid\u00e3o em S\u00e3o Paulo, e a derrocada mental que atinge os que se at\u00e9m aos apag\u00f5es de uma noite para n\u00e3o &#8230; <a title=\"Sons sem sombras: Cap\u00edtulo 1 &#8211; Sinais\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/ana-luiza-savassi\/mussum-ipsum\/\" aria-label=\"Read more about Sons sem sombras: Cap\u00edtulo 1 &#8211; Sinais\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":479,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[14],"class_list":["post-127","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ana-luiza-savassi","tag-terror-sao-paulo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":604,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127\/revisions\/604"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/media\/479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}