{"id":256,"date":"2020-08-20T13:00:02","date_gmt":"2020-08-20T16:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/?p=256"},"modified":"2020-08-24T12:40:00","modified_gmt":"2020-08-24T15:40:00","slug":"e-mais-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/rodrigo-romani\/e-mais-um\/","title":{"rendered":"O frio de julho: Cap\u00edtulo 1 \u2013 23h15min"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Um jovem casal que pretende escrever um TCC sobre \u201cA visibilidade das pessoas solit\u00e1rias na cidade de S\u00e3o Paulo\u201d \u00e9 abordado por um jornalista desempregado num \u00f4nibus noturno. \u00c9 o ponto de partida para <strong>O frio de julho<\/strong>, de <strong>Rodrigo Romani<\/strong>, que nos leva pela madrugada dos bares fechando junto aos tr\u00eas, ao descobrirem que procuram pela mesma mulher. Quanto mais a noite se estende, mais claro fica que a desaparecida corre s\u00e9rios riscos. O autor, que vive o subterr\u00e2neo cultural paulistano desde 2004, busca \u201cconvencer os leitores de que n\u00e3o existe futuro para quem n\u00e3o possui um presente, para quem, na verdade, nem existe, s\u00f3 faz sombra\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">&#8211; E<\/span>u n\u00e3o me lembro da \u00faltima vez <em>vi ela<\/em>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Pois \u00e9&#8230; eu tamb\u00e9m n\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E, al\u00e9m da gente, duvido que algu\u00e9m tenha notado o sumi\u00e7o dela!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Certeza que n\u00e3o&#8230; nem o Seu Marchand.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que Seu Marchand?!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O dono do boteco da rua de baixo da minha casa; Dona Gisela n\u00e3o sai de l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Como voc\u00ea conhece o dono do boteco da rua de baixo da sua casa, Carol?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu assisto <em>os<\/em> jogos l\u00e1, u\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O loco, <em>c\u00ea<\/em> nunca me falou que v\u00ea jogo de futebol em boteco!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>\u00d4xi<\/em>, por que <em>c\u00ea<\/em> t\u00e1 falando desse jeito, com esse tom pejorativo?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sei l\u00e1, \u00e9 estranho, s\u00f3 isso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Estranho uma mulher vendo jogo em boteco, Sr. Deodato?<\/p>\n\n\n\n<p>Deodato, namorado de Carol h\u00e1 algumas semanas, fica mudo por alguns segundos, mas acaba mantendo sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9&#8230; \u00e9 estranho sim. Sei l\u00e1, boteco n\u00e3o \u00e9 lugar pra gente que nem voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina fica indignada com Deodato e na tentativa de manter a compostura, vira-se para tr\u00e1s tentando ignor\u00e1-lo. Ao se virar ela percebe um homem de meia idade inclinado no banco atr\u00e1s deles, praticamente dentro de sua conversa com Deodato. De costas para o casal, o homem de meia idade parece n\u00e3o notar a desconfian\u00e7a dela, ent\u00e3o Carolina aproveita-se da situa\u00e7\u00e3o para cutucar o namorado e o alerta, sussurrando em seu ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Esse cara a\u00ed atr\u00e1s <em>t\u00e1<\/em> ouvindo nossa conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sinaliza em dire\u00e7\u00e3o ao homem de meia idade com a cabe\u00e7a e quando Deodato se vira para olhar, o tal cara j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais sentado naquele lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o tem ningu\u00e9m sentado atr\u00e1s da gente, Carol.<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina vira-se abruptamente, por reflexo, para verificar se o que Deodato a dissera era realmente verdade e ent\u00e3o sente uma dor violenta, como se algo quente houvesse penetrado seu pesco\u00e7o, suas veias, invadindo sua cabe\u00e7a. Uma dor forte o suficiente para fazer qualquer pessoa gritar, mas ela emite apenas um leve e t\u00edmido gemido.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O que foi, Carol?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>Aiii<\/em>&#8230; meu pesco\u00e7o <em>t\u00e1<\/em> <em>queimandooo<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Como assim, Carol?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Espera. \u2013 Ela sussurra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Tudo bem a\u00ed, mo\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>De p\u00e9, ao lado do banco onde o casal est\u00e1 sentado, algu\u00e9m tenta descobrir o que houve com Carolina. Deodato, aflito, sinaliza com as m\u00e3os e a cabe\u00e7a mostrando que n\u00e3o est\u00e1 entendendo, depois responde dizendo que n\u00e3o faz ideia. J\u00e1 se recuperando, mas ainda com as m\u00e3os no pesco\u00e7o, Carolina diz que est\u00e1 bem enquanto, de cabe\u00e7a baixa, tenta alongar o pesco\u00e7o virando o rosto de um lado para o outro lentamente, inclinando a cabe\u00e7a para um lado e para o outro, depois encostando o queixo no peito enquanto puxa a cabe\u00e7a suavemente para frente com uma das m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; T\u00e1 tudo bem, isso acontece \u00e0s vezes quando eu movimento a cabe\u00e7a de forma brusca. Meu pesco\u00e7o queima, \u00e9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Certeza?<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina olha para ele e finalmente percebe que conversa com o homem que, h\u00e1 poucos minutos, ela havia notado sentado no banco de tr\u00e1s com um comportamento estranho. Com cuidado, ela movimenta com a cabe\u00e7a para ratificar a resposta que j\u00e1 havia dado naquele mesmo instante.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Bora, Carol&#8230; <em>chegamo<\/em> na esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m des\u00e7o aqui. Posso acompanhar voc\u00eas. \u2013 O homem alerta.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal se olha e Carolina, tentando esconder seu nervosismo pelo envolvimento daquele homem, rejeita a proposta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o precisa, eu <em>t\u00f4<\/em> bem, isso sempre acontece.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, ao olhar para o ferro onde se apoiaria, Carolina sente nova pontada e desta vez o grito de dor vence a batalha e, livre, ressoa no ar por todo o vag\u00e3o resfriado pelo forte ar-condicionado. Ao redor, as poucas pessoas presentes olham uma para as outras, depois para as tr\u00eas personagens em cena e passam a observam a situa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Carol!<\/p>\n\n\n\n<p>O metr\u00f4 chega \u00e0 esta\u00e7\u00e3o e o homem oferece ajuda novamente, desta vez diretamente a Deodato, para que ele consiga levant\u00e1-la do banco e juntos sa\u00edrem dali. Ele aceita e os dois se posicionam, Carolina entre os dois, oferecendo apoio a ela que, confusa, segura-se em ambos e se levanta sem muito esfor\u00e7o. Ent\u00e3o caminham juntos para fora do vag\u00e3o no momento em que soa o aviso sonoro, fazendo com os tr\u00eas sintam seus cora\u00e7\u00f5es acelerarem.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 caminhando pela plataforma, o dedicado homem que outrora fora flagrado em um comportamento estranho e automaticamente passado a ser observado com suspei\u00e7\u00e3o por Carolina, decide acompanh\u00e1-los por toda a esta\u00e7\u00e3o, como quem est\u00e1 ali \u00fanica e exclusivamente para dar seguran\u00e7a \u00e0 garota. Deodato percebe sua inten\u00e7\u00e3o e acata, contrariando Carolina que aperta seu bra\u00e7o como sinal de insatisfa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 noite de 3 de julho. \u00c9 inverno desde o dia 21 do m\u00eas anterior, mas faz calor; um calor irritante, \u00famido que abafa toda a \u00e1rea que se estende desde da regi\u00e3o de embarque e desembarque dos passageiros at\u00e9 poucos metros antes de o trio se aproximar das escadas, por onde uma corrente de ar um pouco menos quente se movimenta de forma t\u00edmida, mas com intensidade suficiente para tornar a jornada de volta para casa um pouco mais agrad\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Despretensiosamente, o homem de meia idade pergunta a Deodato:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00eas moram longe?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Jd. Santa Flor, perto da Vereador Mascarenhas, <em>t\u00e1<\/em> tranquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sei, conhe\u00e7o ali. Tenho amigos do colegial que moravam por aqueles lados. Voc\u00eas v\u00e3o pegar o \u00f4nibus ali na rua da igrejinha, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora em sil\u00eancio, eles caminham lentamente at\u00e9 chegar ao ponto de \u00f4nibus onde, pesados, o casal se senta suspirando com um al\u00edvio de quem gostaria que o dia tivesse terminado naquele exato momento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s alguns segundos calados, Deodato pergunta ao homem de meia idade que os acompanhou at\u00e9 ali e permanece com eles, agora velando-os.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea faz o que?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Desculpe, nem me apresentei a voc\u00eas. Meu nome \u00e9 Douglas, sou jornalista. \u2013 Ele responde enquanto observa Carolina sentada de cabe\u00e7a baixa, massageando o pr\u00f3prio pesco\u00e7o e estende a m\u00e3o a Deodato.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Legal&#8230; prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E voc\u00eas? Devem ser estudantes, certo? Voc\u00ea \u00e9 a Carol, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sou. \u2013 Ela responde, mantendo a cabe\u00e7a baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E eu sou Deodato, a gente <em>t\u00e1<\/em> fazendo faculdade de Servi\u00e7o Social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Muito bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas se mostra amig\u00e1vel com o casal lhes oferecendo chiclete, enquanto retira do bolso um da caixinha de metal para si.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu quero sim, <em>t\u00e1<\/em> come\u00e7ando a me d\u00e1 fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Deodato estica o bra\u00e7o para pegar um chiclete e Carolina assiste \u00e0 cena novamente contrariada. Douglas aponta a caixinha de metal para ela, mas ela n\u00e3o aceita. Ent\u00e3o a recolhe e a coloca de volta onde estava.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>C\u00ea<\/em> trabalha onde? &#8211; Deodato pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Na verdade estou desempregado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; S\u00e9rio? \u00c9 foda&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9, mas tive hoje uma reuni\u00e3o com um jornalista a\u00ed, renomado at\u00e9. Talvez eu consiga algo. Vamos ver.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que bom!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas ficam em sil\u00eancio e a noite parece come\u00e7ar a se refrescar. Deodato apoia a cabe\u00e7a de Carolina no ombro e Douglas permanece assistindo \u00e0 cena em p\u00e9, de frente para o casal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s alguns minutos, Carolina rompe o sil\u00eancio:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Em qual \u00e1rea <em>c\u00ea<\/em> trabalha?<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas pensa por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo antes de responder.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Investigativa, criminal.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Olha! Que da hora, eu tamb\u00e9m gosto desse tipo de jornalismo. \u2013 Deodato se empolga.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que bom. Eu tenho fasc\u00ednio mesmo por hist\u00f3rias urbanas, inclusive por lendas.<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina, desconfiada, olha para Deodato, enfia a m\u00e3o na bolsinha que carrega pendurada em seu ombro esquerdo. Com movimentos ligeiros, ela tira de l\u00e1 uma nota de dez reais e a estende a Douglas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que <em>c\u00ea<\/em> pode pegar uma \u00e1gua com g\u00e1s pra mim ali com o tio do isopor marrom? Minha garganta secou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela aponta com a cabe\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao ambulante e Deodato se espanta com sua atitude inesperada, se prontificando a fazer o servi\u00e7o ele mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Deixa que eu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230; <em>fica<\/em> aqui comigo, <em>t\u00f4<\/em> com medo de a dor voltar. \u2013 Carolina o interrompe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Tranquilo, fica a\u00ed com ela que eu pego.<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas apanha a nota e come\u00e7a a tra\u00e7ar seu caminho em dire\u00e7\u00e3o ao ambulante. D\u00e1 alguns poucos passos e se vira novamente para o casal, surpreendendo Carolina que ansiosamente tenta prender a aten\u00e7\u00e3o do namorado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c1gua com g\u00e1s, certo?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Isso&#8230; por favor. Se quiser pegar uma pra voc\u00ea, pode pegar. Quer tamb\u00e9m, Deodato?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o, valeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas retoma o caminho at\u00e9 o ambulante sem olhar para tr\u00e1s. Sentada, Carolina puxa suavemente a cabe\u00e7a de Deodato para que seu ouvido chegue mais perto da boca dela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu <em>t\u00f4<\/em> achando muito estranha essa coincid\u00eancia, Deodato.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que coincid\u00eancia, Carol?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu tenho certeza que esse cara <em>tava<\/em> ouvindo a gente falar sobre o sumi\u00e7o da Dona Gisela. A\u00ed, de repente, o cara vem e fala que \u00e9 jornalista investigativo e que gosta de hist\u00f3rias urbanas?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Deve ser por isso que ele se interessou pela nossa conversa, Carol.<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina para de respirar por instantes, aparentemente confusa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E outra, a gente n\u00e3o <em>tava<\/em> falando baixo, ent\u00e3o ele deve ter ouvido. Como um bom jornalista, manteve o foco na hist\u00f3ria, na esperan\u00e7a de ser algo com o que ele poderia trabalhar. Ainda mais porque ele <em>t\u00e1<\/em> desempregado.<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina respira fundo, como quem relaxa ou se livra de um pensamento ruim, suspira ruidosamente e retoma a conversa em um tom mais suave.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ent\u00e3o a gente podia falar sobre a Dona Gisela com ele e&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9 o que eu <em>tava<\/em> pensando agora mesmo, Carol. &#8211; Deodato a interrompe.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9&#8230; mas ser\u00e1 que ele vai se interessar? Como jornalista, pode ser que ele, pelo menos, nos ajude orientando e direcionando a gente na investiga\u00e7\u00e3o. Sei l\u00e1, ainda <em>t\u00f4<\/em> com um p\u00e9 atr\u00e1s com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Claro que ele vai ele querer ajudar! Carol, fica tranquila, eu <em>t\u00f4<\/em> aqui com voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Deodato massageia o pesco\u00e7o da namorada e beija-lhe a cabe\u00e7a, ela novamente se encosta em seu ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>T\u00e1<\/em> aqui sua \u00e1gua e o troco.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal se assusta, deixando Douglas constrangido e confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Desculpe, n\u00e3o quis assustar voc\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Tudo bem. \u2013 Carolina responde, tentando se familiarizar com a ideia de dar confian\u00e7a ao estranho jornalista.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea <em>t\u00e1<\/em> melhor?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>T\u00f4<\/em> melhor, obrigada pela a ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Disponha.<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas permanece em sil\u00eancio por alguns segundos, olhando a tela de seu celular e ent\u00e3o decide ir embora.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Bom&#8230; j\u00e1 que voc\u00ea <em>t\u00e1<\/em> bem, vou deixar voc\u00eas em paz e tomar meu rumo.<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina estende o bra\u00e7o e toca a m\u00e3o de Douglas, que fica paralisado olhando para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Espera, voc\u00ea mora onde?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Aqui mesmo, numa vilinha que tem a duas quadras do metr\u00f4, do lado de l\u00e1 da avenida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Legal, posso eu te fazer uma pergunta?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Claro, fique \u00e0 vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina solta a m\u00e3o de Douglas; o clima entre os dois se tornara mais suave ap\u00f3s a conversa que ela havia acabado de ter com Deodato.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea disse que \u00e9 jornalista e que trabalha com investiga\u00e7\u00e3o criminal e hist\u00f3rias urbanas, certo?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Basicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Legal! \u2013 Deodato se empolga novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Inclusive na reuni\u00e3o que tive hoje, propus fazer uma investiga\u00e7\u00e3o sobre alguns desaparecimentos que ocorreram nas \u00faltimas semanas. S\u00e3o casos bem peculiares, envolvendo pessoas que moram sozinhas, totalmente solit\u00e1rias. Elas simplesmente deixaram de ser vista pelos seus vizinhos e eu sei de tr\u00eas casos j\u00e1: dois no centro, perto do Vale do Anhangaba\u00fa, e um no Bairro do Sabino.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal se olha espantado e ent\u00e3o Deodato abre o jogo com Douglas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Cara, seguinte, \u00e9 exatamente disso que a gente quer falar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00eas conhecem alguma dessas pessoas? \u2013 O jornalista e espanta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o, a gente conhece algu\u00e9m que pode ser uma quarta v\u00edtima. \u2013 Carolina responde.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas, aparentemente surpreso com a informa\u00e7\u00e3o, permanece em sil\u00eancio dando condi\u00e7\u00f5es para que o casal prossiga com o relato. Carolina continua.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O nome dela \u00e9 Gisela, ela vive sozinha em uma casa antiga, bem pequena, na minha rua. Faz alguns dias que n\u00e3o <em>vejo ela<\/em>, mas como ningu\u00e9m costuma perceber que ela existe, n\u00e3o deve nem ter queixa disso na pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E como voc\u00ea percebeu isso? Voc\u00ea tem certeza que ela sumiu? Ela pode ter viajado ou at\u00e9 mesmo estar morta em casa, n\u00e3o se sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que horror, cara! \u2013 Deodato o reprime.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230; ela n\u00e3o <em>t\u00e1<\/em> morta. Pelo menos n\u00e3o dentro de casa. \u2013 Carolina afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E como voc\u00ea tem tanta certeza de que ela n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu fui l\u00e1 checar, a porta <em>tava<\/em> aberta e&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea invadiu a casa da mulher? \u2013 Douglas pergunta com admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Mais ou menos&#8230; \u00e9 que o Deodato e eu estamos fazendo um TCC sobre a visibilidade de pessoas solit\u00e1rias dentro da&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ent\u00e3o voc\u00eas notaram o sumi\u00e7o dela&#8230; entendi. Devem ter sido os \u00fanicos mesmo. Mas ainda assim, como voc\u00ea garante que ela n\u00e3o est\u00e1 viajando?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O guarda-roupa dela <em>t\u00e1<\/em> cheio, encontrei umas malas guardadas. Eu revirei tudo ali, parece que ela saiu e simplesmente n\u00e3o voltou mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas segue acompanhando o relato de Carolina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Outra coisa&#8230; ela tem um papagaio e jamais viajaria sem pedir <em>pra<\/em> algu\u00e9m cuidar dele!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Exato! \u2013 Deodato concorda.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Entendi.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E pelo que voc\u00ea acabou de dizer sobre o sumi\u00e7o de outras tr\u00eas pessoas, ela pode ser mais uma v\u00edtima! Sei l\u00e1, de repente tem um assassino em s\u00e9rie solto por a\u00ed!<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina termina o relato com excita\u00e7\u00e3o e Douglas deixa escapar um leve sorriso antes de tentar tranquilizar o casal.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu acho dif\u00edcil, ela mora muito longe dos lugares de onde as outras tr\u00eas pessoas sumiram. Al\u00e9m disso, at\u00e9 agora s\u00e3o apenas pessoas desaparecidas, ningu\u00e9m sabe se foram assassinadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus pelo qual o casal espera chega, ent\u00e3o Douglas se despede.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230; vem com a gente! Quero mostrar onde ela mora e o material que temos sobre ela, tenho certeza que voc\u00ea vai se interessar!<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina implora, j\u00e1 totalmente desapegada da desconfian\u00e7a que tinha pelo homem de meia idade que se comportava de forma estranha cerca de trinta minutos atr\u00e1s. Douglas permanece parado de frente para o casal.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A n\u00e3o ser que voc\u00ea precise realmente ir embora agora, claro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211;&nbsp; N\u00e3o, n\u00e3o preciso, mas acho melhor eu dar meu contato pra voc\u00eas e marc&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o, cara&#8230; <em>t\u00e1<\/em> tranquilo. \u2013 Deodato o interrompe.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9, vem com a gente&#8230; eu n\u00e3o vou conseguir dormir hoje se n\u00e3o aproveitar essa coincid\u00eancia pra tentar fazer alguma coisa pela Dona Gisela. Tenho certeza de que ela <em>t\u00e1<\/em> precisando de ajuda, eu sinto isso!<\/p>\n\n\n\n<p>Pensativo, Douglas encara o casal enquanto o motorista do \u00f4nibus manobra o ve\u00edculo numa tentativa frustrada de estacionar o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da cal\u00e7ada; a metade de tr\u00e1s do coletivo estava praticamente sobre a cal\u00e7ada enquanto que a porta de entrada estava afastada da sarjeta em cerca de um metro. Um vento gelado agora toma conta da rua, trazendo a certeza de que o tempo finalmente est\u00e1 virando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Carolina abra\u00e7a Deodato, sentindo seu corpo se arrepiar e lamenta<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Nossa, Deodato, agora vai ficar frio de vez. Pior que eu <em>t\u00f4<\/em> sem blusa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Vem, <em>vamo<\/em> entrar logo ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas permanece parado olhando para o casal em sil\u00eancio. Ent\u00e3o Carolina lhe d\u00e1 um ultimato.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea vem ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um jovem casal que pretende escrever um TCC sobre \u201cA visibilidade das pessoas solit\u00e1rias na cidade de S\u00e3o Paulo\u201d \u00e9 abordado por um jornalista desempregado num \u00f4nibus noturno. \u00c9 o ponto de partida para O frio de julho, de Rodrigo Romani, que nos leva pela madrugada dos bares fechando junto aos tr\u00eas, ao descobrirem que &#8230; <a title=\"O frio de julho: Cap\u00edtulo 1 \u2013 23h15min\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/rodrigo-romani\/e-mais-um\/\" aria-label=\"Read more about O frio de julho: Cap\u00edtulo 1 \u2013 23h15min\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":314,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[14],"class_list":["post-256","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-rodrigo-romani","tag-terror-sao-paulo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=256"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":614,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256\/revisions\/614"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/media\/314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portfolio.sitedeartista.com.br\/sobreasombra\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}